Motorista não entregou o sanduíche ao cliente


Autor: José Francisco  
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O morador de rua e o sanduíche que não foi entregue ao solicitante.



Era dezembro. Passavam quinze minutos das 19 horas.  Eu podia ver os pingos da chuva fina que caiam sobre o vidro do teto solar do meu carro. Eu estava dirigindo pelo eixo oeste norte, em Brasília. O meu celular tocou. Verifiquei que havia a chamada de um cliente. Olhei a chamada,  constatei que a localização para “buscar” o passageiro era uma lanchonete McDonald´s.  Aceitei a corrida  com o navegador do aplicativo e fui ao local de embarque. Chegando ao local de embarque, olhei para um lado e para o outro e não percebi ninguém andando para lá e para cá com um celular na mão olhado para todos os lados, procurando o carro solicitado. Achei estranho. Olhei para o meu celular e observei que havia  a seguinte  mensagem: retirar no balcão do McDonald’s. Retirar o quê? Pensei. Lembrei-me  que havia acionado, em meu aplicativo, a opção para realizar entregas, além de conduzir passageiros. Assim,  a partir daquele acionamento, eu podia também, realizar entregas de lanches e outros itens, solicitados por clientes pelo aplicativo. Olhei para a tela do celular. Ali, na tela do celular, estava explícito o nome do cliente que houvera solicitado o lanche ao McDonald’s, bem como o nome do sanduíche e do suco, via aplicativo. Debaixo daquela chuva fina, estacionei o carro. Dei mais uma olhada na tela do celular e lá estava explícito: retirar a encomenda no balcão próximo à direita do caixa. Tudo certinho. Fui ao balcão de despacho na lanchonete.  Esta era a minha primeira entrega de encomenda solicitada por meio de aplicativo. Estas encomendas são denominadas no aplicativo de “Bag”. Eu não sabia. Cheguei perto do balcão da lanchonete. Fiquei procurando o tal balcão à direita do caixa. À direita, da entrada,  existia uma fila com algumas pessoas com roupas típicas de motoboys. Por analogia, concluí que deveria ser ali a fila que daria acesso ao  tal balcão.  Perguntei a um dos motoboys onde eu poderia retirar o sanduíche e um deles me falou: aguarde nesta fila que a atendente vai chamar pelo nome do solicitante que está em seu celular.  Pelo menos uns cinco motoqueiros estavam aguardando suas retiradas para entrega. Eu pensei: quanto tempo vai levar para que a encomenda para mim solicitada ficará pronta. Calculei uns vinte minutos, o tempo que eu deveria ficar aguardando na fila. Esperei um pouco e logo atrás de mim se posicionou um rapaz que não estava vestido com roupa de motoboy. Olhei para ele e perguntei: você é motorista de aplicativo? Ele respondeu que sim. Iniciamos um conversa quando eu lhe perguntei  por quanto  tempo ele era motorista de aplicativo. Ele respondeu que trabalhava na atividade há três anos. Pensei: ele tem muita experiência e pode me ajudar nesta minha primeira missão de entregar esta encomenda. A esta altura, a moça do atendimento chamou o nome do cliente que houvera acionado o aplicativo em meu celular. Olhei para a tela do meu celular. Estava confirmado. Era o nome do meu cliente. Fui ao balcão e peguei um saco contendo dois sanduíches e, à parte, uma lata com néctar de maracujá.  De posse dos dois volumes, olhei novamente para o celular para verificar o local da entrega. Não estava explícito o local para entrega. Este  local não apareceu na tela do celular. Fiquei sem ação com os objetos na mão. Minha atitude foi pedir socorro a outro motorista de aplicativo que estava na fila, logo atrás de mim. Pedi ajuda. O motorista mexeu em meu celular. Mexeu, mexeu e nada de aparecer o botão INICIAR VIAGEM ou  INICIAR ENTREGA. Um outro motorista, vendo a minha agonia, tentou nos socorrer e nada de  aparecer na tela a mensagem para eu iniciar entrega. Mesmo sem ter aparecido a mensagem e eu, já sem paciência, agradeci ajuda e fui embora. Saí da lanchonete na esperança de que, no carro, eu mexendo no celular, o tal botão aparecesse para eu iniciar a viagem. Dentro do carro, tentei por várias vezes e nada do botão aparecer para eu saber o endereço completo para finalizar a entrega.  Após uns dez minutos de tentativas e o sanduíche esfriando, no desespero, sabendo que o cliente estava esperando pelo sanduíche,  tomei  uma decisão. Não podendo entregar a encomenda,  pois eu não tinha o endereço para tal, entrei no aplicativo e cliquei no botão com a opção NÃO QUERO FAZER ESTA ENTREGA. Enviei a mensagem para o  aplicativo. Pronto. Fiquei aliviado. Com esta minha mensagem, o aplicativo enviaria uma  outra mensagem ao cliente, informando da minha decisão e encerrando a sua ansiedade pela espera do sanduíche que não chegava. Mesmo que chegasse, nesta altura, já estava frio. Decidindo não realizar a entrega, coloquei o pacote com os sanduíches sobre o banco dianteiro do carro e fiquei pensando o que fazer com o conteúdo. Calma, não se precipite com esta história. Eu não comei os sanduíches. Acionei o aplicativo para continuar buscando viagens. Em poucos minutos, tocou. Fui ao local do novo cliente. Era uma senhora  que solicitara  a viagem. Ao chegar ao local de embarque, desci, dei  boa noite,  abri a porta, a senhora entrou.  O destino era o Lago Sul, bairro dos mais ricos de Brasília. A esta altura o cheiro dos sanduíches invadira o interior  do carro. Perguntei se ela estava sentindo o cheiro de sanduíche dentro do carro. Ela confirmou que sim. Pedi desculpas. Partimos. Comecei a lhe contar esta história. No meio da conversa, e da corrida, solicitei a ela uma sugestão para dar cabo ao sanduíche que, a cada quilômetro rodado, exalava ainda mais aquele cheiro de comida, tomando conta do interior do carro. Ela então sugeriu que eu doasse aquele sanduíche a um morador de rua que possivelmente encontraríamos em nosso trajeto.  No terceiro semáforo, veio um rapaz solicitar, com uma caixinha na mão,  aquela ajuda de natal. Não vacilei. Lancei mão do pacote com os sanduíches e da latinha com néctar de maracujá e entreguei para ele como nosso presente de natal.  Nosso: meu e da cliente que havia dado a sugestão. Ainda com o sinal fechado, pudemos ver o rapaz dando pulos de alegria.......Sorrimos muito,   vendo a felicidade daquela pessoa. Seguimos  viagem.  Conversamos e brincamos muito durante o restante da viagem por termos feito uma boa ação. No outro dia, quando fui verificar os meus ganhos do dia, percebi facilmente,  que o aplicativo havia descontado do meu saldo financeiro, o valor de R$ 35,00 (trinta e cinco reais) pelo custo do sanduíche que o cliente houvera pago ao McDonald’s, como forma de ressarcimento ao cliente. Na verdade, eu paguei o sanduíche para o morador de rua. Fiz uma boa ação.

Autor: José Francisco  
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