Autor: José Francisco
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A entrega rápida da "encomenda"
Às quinze horas do dia 15 de novembro, proclamação da República Federativa do Brasil. Este dia, no Brasil, é feriado nacional. Por ser feriado o trânsito estava tranquilo pelas ruas de Brasília. Recebi uma chamada. Eu havia deixado uma senhora no Lago Norte, bairro nobre de Brasília. Ao lado do Lago Norte existe a cidade denominada de Varjão. Exatamente o oposto do Lago Norte. A renda per capta mensal no Lago Norte é de 4.738,00 reais e a do Varjão é de 667,00 reais.Cheguei no Varjão às 16 horas enquanto eu adentrava no Varjão meu medo aumentava. Procurava o endereço e não o encontrava. Olhava para o gps do aplicativo e ele virava sem definir um rumo. Eu, com receio daquele lugar não sabia o que fazer. Rodei. Rodei. A cada volta, eu via pessoas andando pelas ruas por onde eu passava. Homens trajando calções e camisetas desgastadas. Eu estava com medo. No entanto o meu lema, como motorista de aplicativo, é: eu vou onde o cliente está e o levo até onde ele quer ir. Com isto na cabeça, usei o meu último recurso.
Parei o carro e desci. Eu bati na porta de uma casa e uma senhora veio falar comigo. Perguntei a ela onde ficava o endereço que constava em meu celular. Ela me indicou o lugar e falou que a mulher era uma conhecida na vizinhança. Disse ainda que o endereço ficava em uma rua abaixo da sua. Depois da ajuda da mulher, entrei no carro fui para o local indicado. Quando eu estava subindo uma ladeira, pelo retrovisor, vi
um homem correndo atrás do meu carro. O homem corria atrás do meu carro gesticulando muito. Percebi que ele portava um objeto preto em sua mão direita. Acelerei o carro mas havia um quebra molas à frente. Pisei no freio. Quase parei o
Carro. Em cima do quebra molas acelerei. Era tarde. O homem alcançou a porta do carro. Puxou a maçaneta. Abriu aborta da frente do passageiro ainda com o carro em movimento e falou: sou eu o passageiro que solicitou o uber. Foi a Karlineuza quem pediu o uber para mim. A esta altura o cara já estava sentado no banco do meu carro e com a porta fechada.Nessa hora eu pensei: é um assalto. Olhei assustado para a mão do homem pensando que ali poderia estar um 38. Nada disso. Ele segurava um velho telefone celular preto, enorme. Olhei de relance para ele que trajava um grande calção, bastante descolorido pelo sol, do estilo daqueles jogadores americanos de basquete. Devido ao desgaste o seu calção, possivelmente tinha sido fabricado há uns cinco anos. Usava ainda uma camiseta de cor indecifrável. Tipo marrom
esverdeado. Diante deste cenário, dentro do meu carro, Minha única opção foi olhar na tela do meu celular para conferir o nome de quem solicitara o uber. Estava ali escrito: Karlineuza. Sem alternativa, perguntei para onde o homem queria ir para confirmar o que estava escrito no aplicativo. Ele me disse que iria para SQN 412 Norte. Para lá nos dirigimos. Iniciei uma conversa com o passageiro para quebrar a tensão. Perguntei se ele morava ali há muito tempo. Ele me respondeu que tinha
chegado ali há um mês. Perguntei-lhe de onde tinha vindo para Brasília. Ele disse que morava no Rio de Janeiro no morro do alemão. Que lá exercia a profissão de comerciante tipo camelô. Tinha perdido seus produtos e que vivera para Brasília trabalhar. Disse que já estava empregado e que a Karlineuza, que pedira o Uber, era a sua patroa e que houvera solicitado o uber para que ele entregasse uma encomenda. Ele me disse que a corrida estava paga para ida e para a volta. Que ia entregar uma encomenda rápida e que voltaria ao Varjão comigo. Me disse que era flamenguista roxo.Neste no momento, comecei a pensar na volta. Livre da encomenda eu seria uma vítima fácil. Eu fui puxando conversa para encher os seus pensamentos com coisas boas. Falei até de Ayrton Sena. Nossa conversa fluía maravilhosamente. Eu já estava até dando tapinhas em suas costas. De repente ele enfiou a mão
por dentro da camisa. Eu fiquei gelado. Mesmo eu sendo quase ateu, pedi a Deus a devida proteção. Ninguém morre ateu. Na última hora sempre clama por Deus. De dentro da camisa o homem sacou um pequeno embrulho em em papel jornal. Respirei
fundo. Aquilo era a encomenda para ser entregue. O que estava contido no embrulho? Somente o destinatário poderia saber. Sua missão era finalizar a entrega daquele embrulho-me ao destinatário. Ele me disse que aquela encomenda deveria ser entregue de forma urgente no local do destino. Sem falta. Continuamos com nossa corrida. Chegamos a SQN 4-2 Norte bloco definido na chamada. Fui parando o meu carro e, antes
Mesmo da parada total o homem abriu a porta. Desceu e saiu correndo
Em direção ao bloco de apartamentos
Parei o carro. Em em menos de cinco minutos o homem estava de volta. Entrou no carro ofegante e pediu para irmos logo embora. Voltamos ao Varjão conversando muito. Eu já vislumbrava a nossa chegada no local. Eu já estava pensando que se nada aconteceu na vinda, possivelmente aconteceria na volta. Naquela subidinha do quebra molas. Mas eu carreguei na conversa. Lembrei que ele me dissera que era flamenguista. Pensei rápido. Falei para ele que eu também sou Flamengo. Para provar que não sou Palmeiras de verdade, falei para ele nome de todos os jogadores do Flamengo da era Zico. Ele
Gargalhou. Abriu para mim a avenida para eu ir fundo na conversa sobre o Flamengo até ao desembarque. O problema é que eu sou Palmeirense. Conversamos até a entrada da cidade do Varjão. Subimos a metade da ladeira e, já perto do fatídico quebra molas, pertinho do desembarque, ele me disse que tinha que comprar uma comida em marmitex para o seu jantar. Ordenou que deveríamos voltar à pista principal da cidade. Voltamos pela ruelas. Paramos em três pontos de venda de marmitex tipo juntinha a oito reais. No último de venda de juntinha ele comprou cinco unidades. Eu esperando dentro do carro. O passageiro voltou e me falou para subirmos por outro caminho. Subimos. No meio da subida, circulando era possível ver pessoas trajadas iguais ao passageiro e com garrafas e latinhas nas mãos. Perguntei para ele sobre o perigo quanto a minha volta por aquele local. Ele me respondeu que o meu carro já estava “registrado” no ambiente e que eu poderia voltar tranquilo. Assim aconteceu. Deixei o passageiro no local de destino. Voltei pelo local da subida. Cheguei na avenida principal. Passei um lenço de papel no rosto que era puro suor. Acelerei. Olhei para o lenço encharcado de suor. Comecei a sorrir sozinho. Hoje quando estou no Lago Norte e recebo uma chamada no Varjão, aceito e subo tranquilo. O pessoal dali é gente fina. Parte de muito que pensamos é preconceito.

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